Com uma visão estratégica sobre o ambiente de negócios e ampla experiência na área tributária, Amanda Venâncio, diretora da Secran Group, apresenta uma análise sobre os desafios e as transformações que impactam as empresas. No artigo a seguir, a autora convida o leitor a refletir sobre os efeitos práticos dessas mudanças e a importância de um planejamento eficiente para a tomada de decisões. Desde que a reforma tributária começou a ganhar forma, poucas frases foram repetidas tantas vezes quanto esta: “O setor de serviços vai pagar muito mais imposto.”
A afirmação ganhou força rapidamente e acabou gerando preocupação em empresários de praticamente todas as áreas: clínicas médicas, escritórios de advocacia, empresas de tecnologia, consultorias, agências de publicidade, academias, escolas e tantos outros prestadores de serviço.
Mas existe um problema nessa frase, ela é genérica demais para ser verdadeira. A reforma tributária não foi construída para tratar todas as empresas de serviços da mesma forma. Empresas do mesmo segmento podem ter impactos completamente diferentes, dependendo da estrutura de custos, do regime tributário, da forma de operação e, principalmente, do perfil dos seus clientes.
É justamente aí que muitos empresários começam a olhar para o lugar errado.
A discussão costuma ficar concentrada na futura alíquota. Claro que ela importa. Mas ela, sozinha, não responde à principal pergunta: qual será o impacto no resultado da empresa?
Imagine duas empresas de consultoria com faturamento semelhante. Uma atende exclusivamente consumidores finais. A outra presta serviços apenas para grandes empresas. A primeira dificilmente conseguirá aproveitar os benefícios da nova sistemática de créditos ao longo da cadeia. Já a segunda poderá estar inserida em um ambiente em que esses créditos passam a fazer parte das negociações comerciais.
O mesmo acontece com empresas que possuem estruturas de custos completamente diferentes. Organizações que compram mais insumos, contratam mais serviços ou terceirizam etapas da operação tendem a sentir os efeitos da não cumulatividade de forma diferente daquelas cuja principal despesa é folha de pagamento.
É por isso que dizer que “o setor de serviços vai pagar mais imposto” pode ser tão impreciso quanto dizer que “todas as empresas terão os mesmos resultados em uma crise econômica”. O setor é amplo demais para caber em uma única resposta.
Na minha visão, esse talvez seja um dos maiores riscos da reforma: fazer o empresário concentrar toda sua atenção na alíquota e esquecer de analisar o modelo de negócio.
Tenho visto empresas extremamente preocupadas em descobrir quanto será o imposto no futuro, quando a pergunta mais importante deveria ser outra: minha empresa está preparada para competir nesse novo ambiente? Preço, margem, posicionamento comercial, estrutura operacional e relacionamento com clientes passam a ter um peso ainda maior. Por isso, antes de concluir se sua empresa será beneficiada ou prejudicada, vale fazer um exercício simples: entender como ela realmente funciona hoje. Muitas vezes, a resposta está menos na legislação e mais dentro da própria empresa.
Na próxima coluna, vamos olhar para outro setor fundamental da economia: o comércio. Afinal, quem realmente ganha e quem perde com o novo modelo tributário?























