Em meio às mudanças trazidas pela reforma tributária, entender como elas afetam, na prática, a rotina das pequenas empresas se tornou essencial. Para lançar esse olhar mais claro e estratégico sobre o tema, convidamos Amanda Venâncio, contadora e diretora executiva da Secran Group.
Quando o assunto é reforma tributária, muitos pequenos empresários respiram aliviados e dizem: “Estou no Simples, então isso não me afeta tanto.” Essa percepção é compreensível. O Simples Nacional foi mantido na reforma. Mas manter não significa que nada muda. A estrutura do Simples continua existindo, reunindo tributos em uma única guia e preservando sua lógica de simplificação. Porém, o ambiente ao redor dele muda. E isso impacta decisões que vão muito além da guia mensal.
A principal alteração envolve os novos tributos sobre consumo. O empresário do Simples poderá escolher como recolher essa parte específica: dentro do próprio Simples, com alíquota reduzida, ou fora, seguindo a lógica do regime geral. Parece detalhe técnico, mas é uma decisão estratégica. Se a empresa vende majoritariamente para o consumidor final, pode fazer sentido permanecer com o recolhimento dentro do Simples. Mas se está no meio da cadeia produtiva, vendendo para outras empresas que aproveitam crédito tributário, a decisão pode ser diferente. Em alguns casos, optar por recolher “por fora” pode tornar a empresa mais competitiva para clientes que buscam crédito integral.
Isso significa que o Simples deixa de ser uma escolha automática e passa a exigir análise. Outro ponto importante está na relação comercial. Empresas do regime geral podem passar a avaliar com mais critério seus fornecedores, considerando o aproveitamento de créditos. Pequenos negócios que ignorarem essa dinâmica podem perder competitividade em determinadas cadeias.
Além disso, a obrigatoriedade de emissão de nota fiscal se amplia, inclusive para MEIs em algumas situações futuras. Isso exige organização, controle e adaptação tecnológica. O ambiente tributário fica mais digital e mais integrado. Improviso tende a custar caro.
O Simples continua sendo uma porta importante para formalização e crescimento. Mas a reforma reforça algo que já deveria fazer parte da rotina do pequeno empresário: acompanhar o próprio regime tributário com visão estratégica. Estar no Simples não significa estar fora da reforma. Significa estar dentro de um modelo que precisa conversar com um sistema maior que está sendo transformado.
A boa notícia é que pequenas empresas que se anteciparem podem usar essa fase de transição para se estruturar melhor, rever preços, analisar margens e fortalecer a gestão financeira. A reforma não elimina o Simples. Ela eleva o nível de atenção necessário para utilizá-lo da melhor forma. Na próxima coluna, vamos falar sobre contratos e negociações. Porque, em um cenário de mudança tributária, o que está escrito hoje pode impactar diretamente o resultado de amanhã. A reforma tributária já começou — e entender agora faz toda a diferença.
Para análises práticas e conteúdo direto ao ponto: @amanda.venancio | @secrangroup




















