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Liderança feminina e saúde mental: o equilíbrio por trás da performance, com Tatiana Bisio

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

No cenário corporativo atual, o topo da pirâmide exige, além de competência técnica, uma resiliência emocional sem precedentes. Para a psicóloga Tatiana Bisio, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o segredo da produtividade sustentável não está em “dar conta de tudo”, mas em alinhar os pilares da mente com a realidade da vida prática.

Os dados reforçam esse cenário. Segundo levantamento da Forbes, as mulheres já ocupam 38% dos cargos de liderança, são as que mais sofrem com a sobrecarga, representando até 65% dos afastamentos laborais no Brasil. Segundo Tatiana, essa pressão é alimentada por uma construção social que exige perfeição em múltiplos pilares, gerando a “Síndrome da Impostora”, onde conquistas são atribuídas à sorte e não à competência. “Trabalhamos na reestruturação cognitiva para que essa líder redimensione os erros e passe a validar suas vitórias como elas realmente merecem”, explica a psicóloga.

“Trabalhamos na reestruturação cognitiva para que essa líder redimensione os erros e passe a validar suas vitórias como elas realmente merecem”, explica.

Entre a performance e o esgotamento

Na prática, esse padrão de autocrítica excessiva impacta diretamente a saúde mental e a forma como decisões são tomadas. Mulheres em posição de liderança, mesmo altamente capacitadas, tendem a operar sob dúvida constante, o que gera desgaste emocional e dificulta a construção de uma relação mais saudável com o próprio desempenho. Essa circunstância se agrava quando somado às demandas externas. A sobrecarga vai além do lado profissional, ela é também mental. E, muitas vezes, o primeiro sinal de que algo não vai bem não aparece de forma consciente, mas física.

“A Síndrome da Impostora vem de um lugar de medo e ameaça. A busca saudável pela excelência, por outro lado, vem de um lugar de construção.” Tatiana Bisio.

Sintomas como cansaço persistente, dificuldade para dormir, irritabilidade e ansiedade são frequentes. Ainda assim, grande parte desses sinais é ignorada até que o quadro evolua para níveis mais intensos, como o estresse crônico ou o burnout.

Burnout e a perda de sentido

Ao contrário do que ainda se acredita, o burnout não está relacionado apenas ao excesso de trabalho. A psicologia contemporânea aponta para um fator mais profundo: a falta de sentido.

“Hoje já se entende que burnout não é um excesso de trabalho, é um excesso de falta de sentido na atividade que você faz corriqueiramente”, explica Tatiana Bisio.

Quando há desalinhamento entre valores pessoais e a atividade exercida, o trabalho deixa de ser fonte de realização e passa a ser apenas obrigação. Mesmo com bons resultados, a sensação de esgotamento se intensifica.

Em cargos de liderança, onde decisões precisam ser rápidas e estratégicas, o estado mental do profissional influencia diretamente os resultados. Uma mente sobrecarregada tende a reagir no automático, evitar decisões difíceis ou agir sob pressão emocional. Já uma mente treinada consegue pausar, analisar cenários com mais clareza e tomar decisões mais assertivas. Esse processo não elimina a pressão, mas muda a forma de lidar com ela.

Mas afinal, quais são os impactos disso?

A saúde emocional da liderança também se reflete na cultura das empresas. Líderes mais equilibrados tendem a construir ambientes com maior escuta, clareza nas demandas e segurança psicológica, fatores que impactam diretamente o engajamento e a produtividade das equipes.

“Nós precisamos cuidar de todo esse complexo sistema que é formado por pessoas, porque são pessoas que formam aquele ambiente. Uma mente treinada consegue pausar, avaliar o cenário e reduzir o viés emocional. Pessoas saudáveis, bem engajadas e que estão felizes e satisfeitas no seu trabalho são pessoas mais produtivas e, consequentemente, mais lucrativas. A empresa precisa pensar em números, mas esses números são consequências do substrato humano. Tendo essa subjetividade bem trabalhada, conseguimos resultados positivos sem o adoecimento do fator humano”, reforça Tatiana Bisio.

Por outro lado, ambientes marcados por sobrecarga e desequilíbrio emocional ampliam o risco de adoecimento e aumentam a rotatividade.

A saúde emocional do líder acaba por ditar a “temperatura” da empresa. Um gestor que cuida de sua saúde mental promove a chamada segurança psicológica, permitindo que a equipe se sinta acolhida e segura para intervir e inovar. Tatiana destaca que o líder equilibrado deixa de ser um gerador de problemas para se tornar um facilitador:

“O líder não vira um novo problema; ele vai virar uma ferramenta de solução e gerenciamento de crise, e não a pessoa que é o causador de doenças emocionais na sua equipe”.

Em última análise, o sucesso de uma organização depende das pessoas que a formam. Em um ecossistema onde tudo é resultado de decisões humanas, cuidar da subjetividade é o caminho mais curto para resultados sólidos e sustentáveis.

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