Para quem olha de fora, a luta pode parecer estar relacionada apenas a força, técnica e combate. Para Breno Costa, coach e professor de Boxe e Muay Thai, a experiência começa antes do antes do primeiro golpe.
À frente do trabalho com as modalidades, Breno observa que a primeira transformação provocada pela prática acontece na relação do aluno consigo mesmo. Pensando além de mudanças físicas, o treinamento exige constância, disciplina e disposição para lidar com o desconforto.
“Antes de transformar o corpo, o treino começa a transformar a mentalidade. A pessoa passa a entender que evolução não acontece de um dia para o outro, mas é resultado de constância, disciplina e disposição para enfrentar desconfortos”, explica.
Segundo o professor, essa mudança tende a acompanhar o praticante para além da academia. Energia, confiança, organização e disposição passam a fazer parte de outros aspectos da rotina, enquanto a própria dinâmica da luta trabalha habilidades como controle da respiração, ansiedade e reações diante de situações de pressão. “Para mim, o verdadeiro resultado do treino não é apenas um corpo mais forte. É uma pessoa mais preparada para a vida”, afirma.
Da competição ao estilo de vida
A percepção sobre as modalidades também vem mudando. Boxe e Muay Thai já não são procurados exclusivamente por quem pretende competir ou aprender técnicas de combate. A prática passou a ocupar um espaço maior entre pessoas que buscam condicionamento físico, saúde e uma rotina mais ativa.
“As pessoas começaram a perceber que a luta não precisa necessariamente ter como objetivo o combate. Ela pode ser uma ferramenta extremamente completa para cuidar do corpo e da mente”, destaca.
A dinâmica dos treinos também é apontada por ele como um dos fatores que contribuem para essa mudança. Condicionamento cardiovascular, coordenação, agilidade, força, resistência e concentração são trabalhados simultaneamente, enquanto o aluno precisa permanecer atento ao próprio corpo e ao que acontece ao seu redor. “É uma atividade dinâmica, que gera aprendizado e evolução constante. Por isso, conseguimos atender desde o atleta que busca performance até a pessoa que simplesmente quer sair do sedentarismo, melhorar a saúde e ter uma rotina mais ativa.”
Nesse cenário, a luta passa a ser entendida menos como uma modalidade restrita ao universo competitivo e mais como uma possibilidade de estilo de vida.
Cada pessoa, um treino
Outro ponto defendido por Breno é a necessidade de adaptar a experiência aos objetivos e ao momento de cada aluno. Para ele, não existe um modelo único capaz de atender pessoas com níveis de condicionamento e expectativas diferentes.
“Não acredito em um treino único para pessoas diferentes. Meu trabalho é adaptar a luta à pessoa, e não obrigar a pessoa a se adaptar a um modelo de treino”, afirma.
Para quem busca performance, a preparação envolve maior intensidade, técnica, estratégia e especificidade. Já quem procura condicionamento e qualidade de vida pode trabalhar as mesmas ferramentas com ajustes de volume, intensidade e complexidade. Para aqueles que estão começando a sair do sedentarismo, porém, a prioridade é outra: construir uma experiência que estimule a continuidade.
“A pessoa precisa sair do treino pensando: ‘eu consigo fazer isso e quero voltar’.”
É nesse princípio que Breno insere a proposta da Flow Fight, metodologia desenvolvida para aproximar a prática da realidade e dos objetivos de cada praticante.
O treino como espelho
Breno ainda pontual que luta também pode revelar comportamentos. Cansaço, erros, frustrações e situações de pressão colocam o praticante diante de reações que, muitas vezes, passam despercebidas na rotina.
“A luta revela como você reage à pressão, à frustração, ao erro e ao cansaço. Algumas pessoas descobrem que desistem muito rápido; outras percebem que são muito mais resilientes do que imaginavam”, observa.
Esse processo está entre os aspectos mais interessantes do treinamento: a busca inicial por um corpo mais forte pode acabar levando a um maior conhecimento sobre a própria mente. “Você começa buscando um corpo melhor, mas acaba conhecendo melhor a própria mente.”
No fim, a lógica da luta pode ser aplicada também fora dela. O adversário deixa de ser necessariamente outra pessoa e passa a ser a própria versão anterior de quem treina.
“Vencer o adversário é uma possibilidade. Vencer a sua própria versão de ontem é uma prática diária.”





















