O mercado financeiro brasileiro começou a semana reagindo fortemente ao resultado do primeiro turno. Bolsa em alta, dólar em queda e forte fechamento das taxas de juros, especialmente nos vencimentos mais longos.
A leitura mais imediata é que a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula abriu espaço para o mercado começar a precificar uma maior probabilidade de mudança no comando do país.
E isso importa.
Uma eventual vitória de Flávio é interpretada pelo mercado como potencialmente mais favorável a uma agenda de menor intervenção estatal, maior disciplina fiscal e maior protagonismo do setor privado.
Mas reduzir toda a reação dos mercados à vantagem de Flávio seria perder a parte mais importante da história.
O mercado gostou muito do resultado das eleições para o Congresso e para o Senado. E esse componente pode ser, inclusive, mais relevante para os preços dos ativos no médio prazo.
O Congresso importa tanto quanto o Planalto, ou até mais, as vezes.
O Brasil não elege apenas um presidente. E, para implementar uma agenda econômica, o presidente precisa do Congresso.
O resultado das eleições legislativas produziu um Congresso mais alinhado ao centro-direita e à direita, reduzindo significativamente o espaço para uma agenda econômica muito distante das preferências do mercado.
Se Flávio vencer, terá potencialmente um Congresso mais favorável à sua agenda. Caso Lula seja reeleito, a composição do Congresso impõe limites importantes à capacidade de seu governo avançar em determinadas pautas econômicas.
É exatamente essa possibilidade que ajuda a explicar parte da reação dos ativos.
O mercado não está apenas perguntando:
“Quem será o presidente?”
Está perguntando:
“Quem será o presidente e com qual Congresso ele terá que governar?”
Essa segunda pergunta é fundamental. É isso que aparece na curva de juros
A reação dos juros longos é particularmente interessante. Quando as taxas de vencimentos mais distantes caem de maneira relevante, o mercado está reduzindo o prêmio de risco embutido na economia brasileira.
Não significa necessariamente que os investidores estejam apostando apenas em uma queda da Selic. Significa que estão tentando antecipar uma combinação de inflação, dívida pública, resultado fiscal e política econômica mais favorável nos próximos anos.
Por isso, o movimento observado hoje não deveria ser interpretado simplesmente como uma “aposta em Flávio”. É uma aposta em um novo equilíbrio político.
A vantagem de Flávio contribui para essa precificação. Mas a composição do Legislativo dá sustentação à tese.
E se Lula vencer?
Essa é talvez a parte mais interessante da leitura atual.
Se Lula vencer o segundo turno, o mercado provavelmente continuará olhando para a composição do Congresso.
E, nesse cenário, a capacidade de Lula implementar uma agenda econômica mais expansionista ou distante das preferências do mercado será menor.
Ou seja, a eleição presidencial pode mudar, mas o Congresso eleito permanece. Isso reduz a possibilidade de uma ruptura completa na política econômica e aumenta a percepção de que o próximo presidente, independentemente de quem seja, precisará negociar com um Legislativo mais conservador e pró-mercado.
Para o mercado, isso é uma boa notícia.
O mercado está precificando duas eleições
É possível separar o movimento atual em duas partes. A primeira é a precificação presidencial. A liderança de Flávio aumenta a probabilidade percebida de uma mudança de governo e, consequentemente, de uma mudança na condução da política econômica.
A segunda é a precificação legislativa. E essa, de certa forma, já está definida.
O Congresso e o Senado que emergiram das urnas são mais favoráveis ao mercado e limitam o espaço de manobra de qualquer governo que assuma em 2027, especialmente se for Lula o vencedor.
Por isso, a forte reação dos ativos brasileiros não deve ser lida apenas como uma vitória antecipada de Flávio.
É também a percepção de que o próximo presidente terá um Congresso mais alinhado com pautas de responsabilidade fiscal, menor intervenção e maior participação do setor privado na economia.
O segundo turno ainda pode mudar os preços
É importante lembrar que o mercado já começou a incorporar esse cenário. A vantagem de Flávio está sendo precificada nos ativos, mas a eleição ainda não terminou.
Quanto mais essa expectativa se consolidar, menor será o impacto de novas pesquisas que apenas confirmem o cenário já incorporado aos preços.
Por outro lado, uma mudança relevante nas probabilidades eleitorais pode produzir movimentos fortes em juros, câmbio e Bolsa. É justamente por isso que as próximas semanas devem continuar sendo marcadas por volatilidade.
O mercado está olhando para outubro, mas principalmente para janeiro de 2027.
E talvez essa seja a principal mensagem do primeiro turno:
Flávio à frente ajuda a explicar a reação de hoje. Mas foi o Congresso e o Senado que deram ao mercado uma razão para acreditar que, independentemente de quem vencer a Presidência, o próximo governo terá menos espaço para se afastar das preferências econômicas do Legislativo.
No fim, o mercado não está precificando apenas quem ocupará o Palácio do Planalto.
Está precificando a governabilidade.




















