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Quando cuidar do outro vira esquecer de si mesma, psicóloga Trícia Moreira explica os limites entre cuidado e anulação

Quando cuidar do outro vira esquecer de si mesma, psicóloga Trícia Moreira explica os limites entre cuidado e anulação
Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

O cuidado com a família é um ato de afeto que demanda dedicação e responsabilidade. No entanto, a preocupação com o outro pode deixar de ser saudável quando passa a ocupar todo o espaço da vida e deixa em segundo plano os desejos, limites e necessidades de quem cuida.

Esse processo nem sempre acontece de forma perceptível. Aos poucos, a mulher pode deixar de lado atividades de que gosta, ter dificuldade para pedir ajuda ou sentir que precisa estar disponível o tempo inteiro. Para a psicóloga Trícia Moreira, um dos principais sinais de alerta aparece quando a mulher começa a perder contato com sua própria identidade diante dos diferentes papéis que exerce.

“Ela continua sendo sempre mãe, esposa, filha, profissional e cuidadora, mas vai perdendo contato com a mulher que existe para além dessas funções.”

Um dos indicativos desse processo é quando cuidar deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma obrigação interna. Pensamentos como “se eu não fizer, ninguém faz” ou “todo mundo precisa de mim” podem revelar uma rotina em que as necessidades dos outros são constantemente colocadas à frente das próprias.

Cansaço constante, irritabilidade, ressentimento, dificuldade de pedir ajuda, abandono de atividades prazerosas, falta de limites e a sensação de que nunca é possível parar também podem indicar que a dedicação ao outro está ultrapassando os limites do cuidado saudável.

Quando cuidar também gera culpa

Existe ainda um paradoxo nesse processo, a mulher pode continuar cuidando da família com amor e, ao mesmo tempo, começar a sentir raiva ou ressentimento das pessoas que ama.

“Muitas vezes essa mulher cuida de todos com amor, mas começa a sentir raiva ou ressentimento justamente das pessoas que ama. Não necessariamente porque deixou de amá-las, mas porque está oferecendo ao outro um cuidado que não consegue oferecer a si mesma.”

A dificuldade em estabelecer limites também pode estar relacionada a padrões aprendidos ao longo da vida. Muitas mulheres crescem com a ideia de que ser uma “boa mulher” significa estar disponível, ceder, suportar e colocar a família em primeiro lugar. Por isso, quando tentam agir de maneira diferente, podem experimentar culpa ou a sensação de que estão sendo egoístas.

Para a psicóloga, entretanto, é importante diferenciar egoísmo de autocuidado. Enquanto o primeiro desconsidera as necessidades do outro, o segundo parte do reconhecimento de que as próprias necessidades também são legítimas.

Nesse sentido, sentir culpa ao começar a estabelecer limites não significa necessariamente que a mulher esteja fazendo algo errado. A sensação pode surgir justamente porque ela está rompendo com um comportamento que aprendeu ao longo da vida.

Como cuidar sem se anular?

Encontrar esse equilíbrio não significa deixar de cuidar da família ou ignorar as necessidades de quem está ao redor. A questão é permitir que o cuidado com o outro exista sem que ele exija o abandono da própria individualidade.

Para isso, algumas mudanças podem ser importantes, como dividir responsabilidades, aprender a pedir ajuda, estabelecer limites e reservar momentos para interesses, amizades e projetos pessoais.

“Esse equilíbrio começa quando ela deixa de se perguntar apenas “quem precisa de mim?” e passa a incluir outra pergunta: “do que eu também preciso?”

Esse processo também pode ter impacto na relação com os filhos. Ao preservar sua individualidade, a mãe transmite aos filhos uma compreensão diferente sobre as relações afetivas.

“Uma mãe que se respeita, coloca limites e preserva sua individualidade também ensina, pelo exemplo, que amar alguém não significa abandonar a si mesmo.”

No fim, a proposta não é escolher entre cuidar de si ou cuidar dos outros, mas compreender que as duas coisas podem coexistir.

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