Após dias intensos de festas, encontros e mudanças na rotina, a volta ao trabalho depois do Carnaval pode representar um desafio emocional para muitos profissionais. Queda de energia, dificuldade de concentração e sensação de desmotivação são relatos comuns nesse período, e, segundo especialistas, não se tratam simplesmente de “preguiça” ou falta de disciplina.
De acordo com a psicóloga Tricia Moreira, o impacto tem explicação neuroemocional. Durante períodos festivos como o Carnaval, o cérebro opera em um estado de alta estimulação: mais prazer, mais socialização, alterações no sono e na alimentação, além de maior exposição a estímulos sensoriais. O retorno abrupto à rotina, marcada por metas, cobranças e responsabilidades, gera um contraste significativo.
“Costumo chamar esse momento de ‘micro luto do prazer’. O sistema nervoso precisa se reorganizar. Existe uma transição real acontecendo”, explica.
Além da mudança no ritmo, o feriado pode funcionar como uma pausa que evidencia um cansaço já acumulado. “Quando a pessoa já está emocionalmente sobrecarregada, o descanso pode escancarar a exaustão. Ao voltar, ela percebe que continua cansada, e isso pode se manifestar como desmotivação, irritabilidade, baixa concentração e até ansiedade.”
Outro fator relevante é o uso do período festivo como forma de fuga emocional. Segundo a especialista, muitas pessoas aproveitam esses momentos para “anestesiar” conflitos internos ou profissionais. Ao retomar a rotina, reencontram os mesmos desafios que estavam apenas temporariamente suspensos. “É um convite a olhar para aquilo que precisa ser cuidado”, pontua.
O papel das empresas na retomada
Diante desse cenário, empresas também têm responsabilidade na construção de um ambiente que favoreça uma retomada mais equilibrada. Para Tricia, o primeiro passo é compreender que produtividade sustentável não nasce da pressão, mas do equilíbrio.
Entre as medidas práticas recomendadas estão:
- Evitar sobrecarga imediata logo no primeiro dia de retorno.
- Priorizar organização e alinhamento antes de cobranças.
- Incentivar pausas estratégicas ao longo da jornada.
- Promover conversas abertas sobre bem-estar emocional.
Investir em programas de saúde mental e formação de lideranças mais empáticas.
A especialista ressalta que o colaborador não deixa suas emoções do lado de fora ao entrar na empresa. Por isso, ambientes psicologicamente seguros, onde há respeito, escuta ativa e clareza nas demandas, reduzem significativamente os impactos emocionais desse período de transição.
“No fundo, o que sustenta a produtividade é o senso de propósito e pertencimento. Quando o profissional se sente visto e respeitado como ser humano, a energia retorna de forma muito mais consistente”, conclui.
A retomada pós-Carnaval, portanto, pode ser menos sobre cobrança e mais sobre consciência, tanto individual quanto organizacional. Em um mercado cada vez mais atento à saúde mental, o equilíbrio entre desempenho e bem-estar deixa de ser tendência para se tornar necessidade.

















