Por Filipe Távora | Economista, sócio e diretor de Wealth Management da Astor Capital, com experiência em investment banking, M&A e estratégia empresarial. Atua como conselheiro consultivo, professor e autor na área de educação financeira.
A inflação brasileira encerrou 2025 abaixo das expectativas e dentro da meta oficial. Segundo dados do IBGE, divulgados pela Agência Brasil, o IPCA subiu 0,33% em dezembro e fechou o ano com alta acumulada de 4,26%, abaixo do teto da meta de 4,5%.
Mais do que um número pontual, o resultado aparenta consolidar um processo de desinflação gradual, com os preços caminhando na direção do objetivo perseguido pela política monetária. Ainda assim, o Banco Central optou por manter a taxa Selic em 15% ao ano na última reunião do COPOM de 2025, sem um expressar qualquer tom com o início de cortes para a primeira reunião.
Inflação dentro da meta e convergindo
O dado de 4,26% não apenas manteve a inflação dentro do intervalo permitido, reforçando a convergência. A dinâmica inflacionária ao longo do ano mostrou arrefecimento de pressões, menor disseminação de altas e um comportamento mais compatível com uma economia com juros elevados.
Em outras palavras: o carrapato está fraco, ou quase morto.
O Banco Central preferiu deixar a política monetária em banho-maria: juros elevados, discurso duro e nenhuma pressa. A mensagem implícita é simples: mesmo com a inflação sob controle, o custo de errar “para baixo” é considerado maior do que o custo de manter o aperto por mais tempo.
Essa postura transforma a busca pelo centro da meta quase em um objetivo absoluto, ainda que os custos colaterais do aperto já estejam bem conhecidos.
Ainda assim, o discurso do Banco Central seguiu firme. A inflação dentro da meta não é suficiente. Segundo a ata mais recente, o objetivo explícito é assegurar a convergência ao centro da meta, e não apenas permanecer dentro da banda de tolerância.
Selic a 15%: pode ser um remédio forte demais?
Com a Selic em 15%, o Brasil permanece entre os países com maior juro real do mundo. Trata-se de uma política claramente contracionista, que atua diretamente sobre o crédito, o consumo e o investimento.
Os efeitos são conhecidos:
• crédito caro e restrito;
• investimentos produtivos adiados;
• empresas pressionadas no capital de giro;
• crescimento econômico limitado.
O problema não é combater a inflação. O problema é continuar apertando quando o paciente já responde ao tratamento.
O risco de matar a vaca
A metáfora é inevitável. Juros altos são eficazes para matar o carrapato da inflação. Mas, mantidos por tempo excessivo, começam a comprometer a saúde da própria economia.
Ao insistir em juros elevados mesmo após a inflação encerrar o ano dentro da meta e em trajetória de convergência, o Banco Central assume o risco de sacrificar atividade econômica, investimento e crescimento em nome de uma precisão quase cirúrgica no centro da meta.







