Na última quinta-feira, 29 de outubro, as ações da Alphabet, dona do Google, caíram 12,6%. Foi o pior pregão da empresa desde que ela chegou à bolsa, em 2004, e custou cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado em um único dia. Horas depois, a Amazon divulgou seu balanço e chegou a recuar 9% nas negociações fora do horário regular.
O que as duas quedas têm em comum não é falta de demanda. O Google Cloud dobrou de tamanho em um ano, e a AWS, braço de nuvem da Amazon, cresceu 39%, o ritmo mais rápido em quase cinco anos. O incômodo está do outro lado da conta: o dinheiro que essas empresas estão gastando para construir a infraestrutura da inteligência artificial.
Quem acompanha o mercado há algum tempo sente um certo déjà vu. Vale revisitar por quê.
O que aconteceu em 2000
Na segunda metade dos anos 1990, investidores se convenceram de que a internet mudaria tudo. Estavam certos. O problema foi quanto aceitaram pagar por essa certeza. Depois do IPO da Netscape, em 1995, bastava ter “.com” no nome para atrair dinheiro. Lucro deixou de ser critério. Valiam o número de visitantes, a velocidade de crescimento e a promessa de dominar um mercado que ainda nem existia.
O ambiente ajudava. O Fed cortou juros em 1998, depois da crise russa e da quebra do fundo LTCM, e voltou a irrigar o sistema por medo do bug do milênio. Corretoras online levaram a pessoa física para a bolsa. Em dezembro de 1996, Alan Greenspan já falava em “exuberância irracional”. O mercado ainda subiu por mais três anos.
O Nasdaq chegou a 5.048 pontos em 10 de março de 2000. Com os juros americanos subindo até 6,5% e o caixa das startups acabando, a confiança virou. Em outubro de 2002, o índice estava perto de 1.114 pontos, uma queda de quase 80%. Só voltaria àquele pico em 2015.
Pets.com, Webvan e eToys desapareceram. A Cisco, que vendia os equipamentos da rede e chegou a ser a empresa mais valiosa do mundo, perdeu mais de 80% do valor. As operadoras se endividaram para enterrar fibra óptica por todo lado, apostando numa demanda que levaria anos para aparecer. Global Crossing e WorldCom quebraram, a segunda no meio de uma das maiores fraudes contábeis da história.
A ironia é que aquela fibra, comprada a preço de banana nos leilões de falência, virou a base do Google, do YouTube e de tudo o que veio depois. A internet venceu. Muitos de seus investidores, não.
As semelhanças
Hoje, a fibra se chama data center. Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta devem investir juntas cerca de US$ 700 bilhões em infraestrutura neste ano. Só a Alphabet gastou US$ 51,4 bilhões no terceiro trimestre, mais que o dobro do mesmo período de 2025, e já avisou que 2027 terá um aumento significativo.
Esse ritmo começa a pesar. Pelas estimativas de mercado, o investimento dessas empresas deve consumir 92% do fluxo de caixa operacional em 2026, contra 41% em 2023. No último trimestre, a Alphabet queimou US$ 9,1 bilhões de caixa livre. A Amazon acumula US$ 42,4 bilhões negativos em doze meses. Para fechar a conta, as gigantes voltaram ao mercado de dívida: Alphabet, Amazon, Meta e Oracle já emitiram mais de US$ 200 bilhões em títulos neste ano.
Gastar antes de faturar, com dívida crescente e bolsa cara. O S&P 500 começou 2026 negociado a 23 vezes o lucro projetado, nível que não se via desde a virada do milênio. O roteiro é conhecido.
As diferenças
Mas há diferenças que não dá para ignorar. Em 2000, quem puxava a alta eram empresas sem lucro, recém-chegadas à bolsa e financiadas pelo pequeno investidor. Hoje são as companhias mais lucrativas do planeta. Mesmo depois da queda, a Alphabet é negociada a cerca de 19 vezes o lucro esperado para 2027. A Cisco, no auge, passou de 100 vezes.
A receita também é real. Ninguém está pagando por audiência futura: essas empresas vendem capacidade de computação, e os clientes estão comprando. A Microsoft, que divulgou resultados na mesma semana, gerou US$ 18,6 bilhões de caixa livre no trimestre e viu suas ações ficarem estáveis. O mercado não está punindo o investimento em IA. Está punindo quem ainda não mostrou retorno.
Há, porém, uma diferença que joga contra. Fibra óptica dura décadas, enquanto um chip de IA fica ultrapassado em poucos anos. Se houver excesso de investimento agora, a sobra não terá a mesma vida útil para sustentar um novo ciclo, como aconteceu depois de 2000.
E existe um risco que não aparecia nas .com: a canibalização. Na teleconferência da Alphabet, o diretor de negócios Philipp Schindler admitiu que o crescimento do AI Mode, a busca com IA do Google, reduziu a monetização. Se a nova tecnologia corrói o lucro do negócio antigo, o retorno do investimento pode ser bem menor do que os números de crescimento sugerem.
Correção ou bolha?
A queda desta semana, por si só, não é o estouro de uma bolha. Parece mais o momento em que o mercado deixa de aceitar promessas e passa a cobrar resultados. O detalhe é que, em 2000, a virada também começou assim: não com um colapso, mas com uma sequência de balanços que deixavam de convencer.
O próximo teste vem na segunda quinzena de novembro, quando a Nvidia, que vende os chips dessa corrida, divulga seus números. Depois disso, três indicadores merecem atenção: o fluxo de caixa livre das gigantes, a relação entre a receita de nuvem e o volume investido, e o efeito da IA sobre os negócios que ainda pagam as contas.
A internet mudou o mundo, e quem comprou Nasdaq em março de 2000 levou quinze anos para recuperar o dinheiro. A lição continua valendo: acertar a tecnologia não basta. O que define o resultado de quem investe é o preço que se paga.




















