A complexidade de uma obra envolve diferentes etapas, fornecedores, contratos, equipes e movimentações financeiras. Nesse cenário, falhas aparentemente pontuais podem gerar impactos significativos no orçamento, no cronograma e no resultado final do empreendimento. A auditoria pode atuar justamente na identificação dessas fragilidades, ajudando construtoras a fortalecerem controles e anteciparem riscos.
Um dos principais pontos de atenção está na relação entre o que foi efetivamente executado no canteiro e o que está sendo medido e pago. Segundo Karla Carioca, CEO e Sócia-Administradora do Grupo Dominus, uma medição superestimada pode resultar em pagamentos por serviços que ainda não foram concluídos ou que foram executados fora das especificações previstas.
“Em uma obra, o risco mais característico é a divergência entre o que foi fisicamente executado e o que está sendo medido e pago.”
A situação pode ocorrer tanto por erro quanto por práticas deliberadas, como o conluio com fornecedores. A auditoria também pode identificar desvios orçamentários acumulados ao longo das etapas da obra, especialmente quando estão relacionados a aditivos contratuais sem justificativa técnica clara.
Além dos aspectos financeiros, o controle de materiais e estoques no canteiro representa outro ponto de atenção. Furtos, desperdícios e desvios podem passar despercebidos quando não existem conferências periódicas e procedimentos adequados de acompanhamento.
“A auditoria também ajuda a identificar riscos de conformidade regulatória, como questões trabalhistas e de segurança do trabalho, licenças e alvarás que podem gerar embargos ou multas e riscos de cronograma, já que atrasos em uma etapa se propagam para as seguintes e podem gerar custos financeiros adicionais ou penalidades contratuais com o cliente final”, acrescenta Karla.
Controles sobre fornecedores
A relação com fornecedores e prestadores exige atenção desde o momento da contratação até o pagamento pelos serviços executados. Nesse processo, a auditoria pode atuar em diferentes etapas para verificar se existem controles suficientes e se eles estão sendo efetivamente cumpridos.
Na contratação, são avaliados critérios como realização de cotações, níveis de aprovação, verificação da idoneidade dos fornecedores e possíveis conflitos de interesse. Durante a execução, a auditoria pode confrontar os registros físicos da obra com as informações financeiras utilizadas para fundamentar os pagamentos feitos pelas construtoras.
Isso inclui a análise de diários de obra, relatórios de fiscalização e vistorias no local, comparando o serviço efetivamente realizado com o volume ou percentual que consta na medição financeira.
Já na etapa de pagamento, um dos principais pontos é a segregação de funções. Concentrar em uma mesma pessoa as atividades de medir o serviço, aprovar a medição e efetuar o pagamento aumenta a exposição a erros e fraudes.
“Quando essas três funções se concentram nas mesmas pessoas, o risco de erro e de fraude aumenta significativamente.”
A auditoria também pode testar situações específicas de risco, como fracionamento de faturas para evitar limites de aprovação, pagamentos duplicados e aplicação de reajustes ou aditivos em desacordo com as condições previstas nos contratos.
“Esse conjunto de verificações reduz a exposição a pagamentos indevidos, fortalece a rastreabilidade de cada centavo desembolsado até o serviço ou material correspondente”, conclui.
Além do controle no presente, a organização dessas informações pode gerar benefícios para as etapas seguintes do negócio. O histórico dos contratos, serviços e pagamentos facilita negociações futuras com fornecedores e também pode apoiar processos de auditoria externa ou due diligence.
Dessa forma, a auditoria aplicada à construção civil pode ir além da identificação de irregularidades. Ao analisar processos, controles, contratos e execução das obras, o trabalho permite que a gestão tenha maior visibilidade sobre os riscos envolvidos e possa agir antes que falhas se transformem em prejuízos para o empreendimento.





















