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O clima pode mudar o rumo da safra 2026/27? O que o produtor precisa acompanhar, por Surama Geleilate

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Em análise sobre as perspectivas para o agronegócio brasileiro, Surama Geleilate, diretora da Geleilate Agronegócio e Logística, chama atenção para os efeitos do El Niño sobre a safra de grãos 2026/27. A intensificação do fenômeno climático acende um alerta para produtores e agentes do setor, com possíveis impactos na produtividade, na oferta de grãos e nas estratégias de comercialização.

A safra brasileira de grãos 2026/27 começa sob a influência de um fator que pode alterar o planejamento de produtores e de toda a cadeia do agronegócio: o clima. A intensificação do El Niño coloca em evidência os riscos associados à distribuição das chuvas, às temperaturas e à ocorrência de eventos extremos. Embora seus efeitos não sejam iguais em todo o território nacional, o fenômeno exige atenção especial às condições de cada região produtora.

O boletim de outubro do Painel El Niño, divulgado por instituições como INMET, INPE e Cemaden, aponta elevada probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte a partir de novembro de 2026. Para o trimestre de novembro a janeiro, a previsão indica maior probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e em partes do Sudeste e Centro-Oeste. Em contrapartida, grande parte do Norte e áreas do Nordeste e do Centro-Oeste podem registrar precipitações abaixo da normal climatológica. As temperaturas também tendem a ficar acima da média em quase todo o país.

Na prática, esse cenário pode trazer consequências diferentes para o calendário agrícola. No Sul, o excesso de chuva pode dificultar operações de campo, atrasar o plantio, comprometer a qualidade das lavouras e aumentar a ocorrência de doenças. Já em áreas do Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste, a irregularidade das precipitações pode prejudicar a implantação das culturas, reduzir a umidade do solo e comprometer o desenvolvimento das plantas em fases importantes do ciclo.

Para culturas como soja e milho, a disponibilidade de água nos períodos de germinação, desenvolvimento vegetativo e enchimento de grãos é determinante para o potencial produtivo. A ocorrência de veranicos, temperaturas elevadas ou chuvas excessivas pode afetar a produtividade e, consequentemente, modificar as estimativas de produção. No caso do milho segunda safra, alterações no calendário da soja também merecem atenção, pois podem reduzir ou deslocar a janela ideal de semeadura.

É importante destacar que o El Niño não determina, isoladamente, o resultado de uma safra. A intensidade dos impactos depende da localização das lavouras, do tipo de solo, da cultura, do estágio de desenvolvimento e das condições meteorológicas observadas ao longo do ciclo. Por isso, previsões sazonais devem ser acompanhadas como indicadores de risco, e não como uma confirmação antecipada de perdas ou ganhos de produção.

Os reflexos também ultrapassam os limites das propriedades rurais. Mudanças nas expectativas de produtividade podem alterar projeções de oferta, estoques e exportações, influenciando a formação dos preços no mercado interno e nas bolsas internacionais. Quando há preocupação com possíveis perdas em regiões produtoras relevantes, o mercado tende a incorporar essa incerteza às suas expectativas. Por outro lado, condições favoráveis em determinadas áreas podem contribuir para uma perspectiva de maior disponibilidade de grãos.

Diante desse cenário, o planejamento ganha ainda mais importância. Acompanhar boletins meteorológicos, monitorar a umidade do solo, avaliar as condições das lavouras e ajustar o calendário de operações são medidas que ajudam a reduzir a exposição aos riscos. Também é importante considerar alternativas de gestão, como o uso adequado de seguro rural, a análise dos custos de produção e o planejamento da comercialização, evitando decisões baseadas exclusivamente em movimentos pontuais do mercado.

Na comercialização, o produtor precisa observar não apenas o preço do momento, mas também as perspectivas de oferta, demanda, logística e câmbio. A possibilidade de alterações na produção pode influenciar as cotações, mas tentar antecipar movimentos climáticos e seus efeitos sobre os preços envolve incertezas. Por isso, definir estratégias de venda de forma planejada, considerando custos, necessidade de caixa e oportunidades disponíveis, pode ser tão importante quanto acompanhar o desenvolvimento da lavoura.

Na minha avaliação, a safra 2026/27 reforça uma realidade do agronegócio: o clima precisa fazer parte da estratégia de negócio, e não ser observado apenas quando surgem problemas no campo. Informação atualizada, análise regional e decisões bem planejadas ajudam produtores e compradores a se prepararem para diferentes cenários.

Em um mercado cada vez mais sensível às condições de produção, acompanhar o clima é também acompanhar os possíveis movimentos do mercado de grãos. Afinal, uma boa estratégia começa antes mesmo de a safra chegar ao armazém.

Surama Geleilate
Diretora | Geleilate Agronegócio e Logística

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