As canetas emagrecedoras se tornaram um dos medicamentos mais conhecidos dos últimos anos pelo efeito sobre a perda de peso. No entanto, à medida que novos estudos são desenvolvidos, a discussão sobre os efeitos da tirzepatida vem ultrapassando a balança e ampliando o debate sobre seu papel no tratamento de doenças metabólicas.
A tirzepatida atua sobre os receptores de GIP e GLP-1, dois hormônios intestinais naturais que controlam o açúcar no sangue e a saciedade, e foi inicialmente estudada para o tratamento do diabetes tipo 2. Posteriormente, estudos também demonstraram sua eficácia no controle crônico do peso. Hoje, pesquisadores investigam ainda seus possíveis efeitos sobre fatores relacionados à saúde cardiovascular, renal e hepática.
Para o nutrólogo Fred Carioca, a principal mudança está na forma como a medicina passou a enxergar o tratamento de doenças metabólicas.
“Isso vai muito além do emagrecimento, vai em todos os âmbitos que melhoram a qualidade de vida das pessoas. Não só porque emagrece, mas porque regula várias doenças cardiometabólicas.”
Segundo o especialista, a perda de peso é apenas uma parte dos efeitos observados em pacientes adequadamente selecionados. A melhora do controle glicêmico e de outros fatores metabólicos ajuda a explicar por que essas moléculas passaram a despertar interesse em diferentes áreas da medicina.
“É um consenso desde o início essa melhora do perfil cardiometabólico”, afirma o médico. “A gente sabe que melhora a pressão arterial sistólica e diastólica, melhora o colesterol total, reduz triglicerídeos, melhora a hemoglobina glicada e reduz marcadores inflamatórios.”
O que mudou na discussão sobre o coração
No fim de agosto, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou uma nova indicação para o Mounjaro voltada à redução do risco de morte cardiovascular, infarto e AVC em adultos com diabetes tipo 2 que apresentam alto risco para esses eventos.
A decisão foi baseada, entre outros dados, em um estudo que comparou a tirzepatida com a dulaglutida, medicamento que já possui benefício cardiovascular estabelecido. A tirzepatida demonstrou não inferioridade em relação à dulaglutida para a ocorrência de morte cardiovascular, infarto ou AVC, embora não tenha demonstrado superioridade estatística no estudo.
O avanço, no entanto, não significa que o medicamento deva ser visto como uma solução isolada para prevenir doenças cardiovasculares.
“Quando a gente controla o conjunto dos fatores cardiometabólicos, o impacto não fica restrito a um único número do exame. É uma abordagem que envolve peso, glicemia, pressão e outros fatores que interferem no risco do paciente”, explica Fred Carioca.
No Brasil, a indicação cardiovascular específica aprovada recentemente pela FDA ainda não consta entre as indicações publicadas pela Anvisa para o Mounjaro. Atualmente, o medicamento é aprovado no país para o controle da glicemia em adultos com diabetes tipo 2 e para o controle crônico do peso em pacientes que atendem aos critérios estabelecidos.
Estudos também investigam rins e fígado
O interesse científico pela tirzepatida também alcança outras doenças associadas à obesidade e ao diabetes. Na área renal, análises apontaram desaceleração na perda da função dos rins e melhora em marcadores como a albuminúria em pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. Esses resultados, porém, ainda estão sendo complementados por estudos específicos em pacientes com doença renal crônica.
“Na função renal, a gente observa melhora e diminuição do declínio da função. Existem evidências em relação à taxa de filtração glomerular, e estudos mais específicos estão sendo realizados para definir com mais precisão o tamanho desse benefício”, afirma o nutrólogo.
No fígado, os estudos também têm despertado atenção pela redução da gordura hepática e pela melhora de fatores metabólicos associados à doença hepática gordurosa. No entanto, ainda há pesquisas em andamento para definir o impacto da tirzepatida sobre desfechos hepáticos mais avançados.
“Hoje a gente observa uma melhora importante da gordura no fígado em muitos pacientes, mas ainda existem estudos em andamento para entender melhor os efeitos em estágios mais avançados da doença”, explica Fred Carioca.
Mais do que uma caneta para emagrecer
A evolução das pesquisas reforça uma mudança na própria abordagem das doenças metabólicas. Durante muito tempo, diabetes, obesidade, hipertensão e outras condições foram frequentemente tratadas de forma separada. O avanço de medicamentos capazes de atuar sobre diferentes mecanismos, porém, vem fortalecendo uma visão mais integrada do paciente.
“Foi um grande avanço a identificação dessas moléculas. Elas passaram a ajudar muito mais pessoas porque os benefícios não estão apenas na perda de peso, mas no conjunto de doenças e fatores que interferem na qualidade de vida”, avalia o médico.
Apesar dos resultados promissores, especialistas reforçam que a tirzepatida não substitui alimentação adequada, atividade física e acompanhamento médico. A indicação depende do perfil clínico de cada paciente e dos riscos envolvidos.
Os próximos anos devem trazer respostas mais precisas sobre o alcance desses medicamentos. Estudos continuam acompanhando os efeitos da tirzepatida sobre desfechos cardiovasculares em pessoas com obesidade ou sobrepeso, enquanto pesquisas específicas também investigam seu papel na doença renal crônica.






















