Empresa de serviços vai pagar mais imposto? A resposta não cabe em um “sim” ou “não”
Se existe um grupo de empresários acompanhando a reforma tributária com um certo frio na barriga, é o setor de serviços. Nos últimos meses, repetiu-se tanto a frase “serviços vão pagar mais imposto” que ela quase virou verdade absoluta. E é justamente aí que precisamos ter cuidado.
A reforma pode, sim, aumentar a carga sobre determinadas empresas de serviços. Mas afirmar que todo prestador de serviço vai pagar mais é uma simplificação que ignora justamente o que mais importa: como aquela empresa funciona. E talvez essa seja uma das primeiras mudanças de mentalidade que a reforma exige do empresário. Não basta perguntar: “qual será a nova alíquota?”. É preciso perguntar: qual será o impacto dessa nova lógica no meu negócio?
O novo sistema é baseado em IBS e CBS e tem como uma de suas principais características a não cumulatividade. Em termos simples, empresas sujeitas ao regime regular poderão aproveitar créditos relacionados às suas aquisições, observadas as regras previstas na legislação. Ou seja, olhar apenas para a alíquota da venda e compará-la com os percentuais pagos hoje pode produzir uma conclusão bastante equivocada.
O problema é que empresas de serviços têm estruturas muito diferentes entre si. E uma empresa com grande volume de compras, tecnologia, equipamentos, locações, serviços contratados e outros custos que possam gerar créditos pode ter um cenário; uma operação essencialmente baseada em mão de obra pode ter outro; e duas empresas que faturam exatamente o mesmo valor podem sentir a reforma de maneiras completamente diferentes.
É por isso que, na minha visão, a folha de pagamento passa a ser uma das grandes questões estratégicas do setor de serviços. O novo modelo amplia a lógica de créditos sobre diversas aquisições da atividade empresarial, mas salário não é uma compra tributada por IBS e CBS que gere crédito da mesma maneira. E para negócios intensivos em pessoas, isso precisa entrar na conta.
Há ainda outro detalhe importante: nem todo serviço seguirá exatamente a alíquota-padrão. A reforma criou tratamentos diferenciados para algumas atividades. Profissões regulamentadas que atendam aos requisitos legais podem ter redução de 30% nas alíquotas, enquanto áreas como saúde e educação contam com redução de 60%.
Ou seja, “setor de serviços” é uma expressão ampla demais para servir como diagnóstico tributário.
E o Simples Nacional adiciona mais uma camada a essa análise. Como vimos na coluna anterior, empresas optantes poderão manter IBS e CBS dentro do Simples ou, em determinadas situações, optar pela apuração desses tributos pelo regime regular. A decisão pode ser especialmente relevante para quem vende para outras empresas, porque o crédito tributário passa a influenciar também a relação comercial.
Então, antes de entrar em pânico com uma manchete dizendo que “serviços pagarão mais”, vale colocar os números na mesa:
Quanto da sua estrutura está concentrada em folha? Quanto você compra de outros fornecedores? Quem são seus clientes? Eles são pessoas físicas ou empresas? Sua atividade tem redução de alíquota? Você está no Simples, Lucro Presumido ou Lucro Real? Qual é sua margem atual? E quanto desse eventual aumento de custo poderia ser repassado ao preço?
Perceba como a discussão rapidamente deixa de ser apenas tributária e passa a envolver modelo de negócio, preço, margem, estrutura de custos e posicionamento comercial.
E esse talvez seja o ponto que mais tenho chamado atenção nesta série: a reforma tributária não deveria levar empresários a procurar uma resposta pronta. Deveria levá-los a fazer perguntas melhores.
A pergunta não é simplesmente: “vou pagar mais imposto?”, mas “como a reforma muda a rentabilidade e a competitividade da minha empresa?”
Porque pode haver empresas de serviços que pagarão mais, outras que terão impactos menores e algumas que poderão encontrar oportunidades na nova estrutura. Descobrir em qual grupo sua empresa está exige simulação, não adivinhação. E quanto antes essa conta for feita, maior será o espaço para ajustar preço, custos, contratos e estratégia sem transformar 2027 em uma corrida contra o relógio.
A reforma tributária já começou — e entender agora faz toda a diferença.
Reforma tributária não é sobre imposto. É sobre estratégia.






















