Em uma rotina corporativa marcada por prazos, excesso de estímulos, cobranças e necessidade constante de produtividade, esquecer compromissos, perder o foco, procrastinar ou terminar o dia mentalmente exausto parecem fazer parte do cotidiano. Mas até que ponto esses sinais são consequência de uma mente sobrecarregada e quando podem indicar um transtorno de saúde mental?
Para a médica pós-graduanda em psiquiatria Virna Holanda, essa diferenciação é fundamental, principalmente diante da popularização de diagnósticos como TDAH e Burnout. Segundo a médica, a sobrecarga pode provocar sintomas semelhantes aos de alguns transtornos, mas isso não significa, necessariamente, que exista um diagnóstico.
“O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que vai surgir desde a infância. São sintomas que persistem até a fase adulta, mas geralmente vêm de fases anteriores da vida”, explica.
Por isso, uma das perguntas que devem ser feitas é simples: essa dificuldade sempre existiu ou apareceu com a sobrecarga? Esquecimento, dificuldade de concentração, procrastinação e irritabilidade que surgem em um período de intensa pressão podem estar relacionados ao cansaço cognitivo. Já quando esses sinais acompanham o indivíduo desde fases anteriores da vida, é necessário buscar uma avaliação adequada.
Quando o cansaço vira alerta
A mesma atenção vale para o Burnout. Nem todo profissional cansado está diante de um quadro de esgotamento ocupacional. O sinal de alerta aparece quando o descanso deixa de ser suficiente para recuperar o indivíduo.
“Geralmente eu peço para os meus pacientes ficarem atentos quando o cansaço tem se tornado persistente. Você dorme, acorda e continua cansado”, afirma Virna.
Alterações no sono, ansiedade, pensamentos repetitivos, dificuldade de concentração e mudanças no apetite também podem indicar que o organismo está operando além dos próprios limites. Esses sinais, no entanto, podem estar relacionados a diferentes condições e, justamente por isso, não devem ser utilizados isoladamente para estabelecer um diagnóstico. A médica chama atenção ainda para os efeitos do estresse crônico, que podem repercutir em diferentes áreas da vida. A questão passa a ser observar se, depois de períodos de descanso, existe recuperação ou se a pessoa continua funcionando constantemente no limite.
“Se você só tem funcionado nesse limite, já é hora de buscar ajuda”, alerta.
A armadilha da alta performance
Em meio à cultura de produtividade constante, outro fenômeno ganha espaço: o autodiagnóstico. Vídeos nas redes sociais e conteúdos que apresentam listas de sintomas podem levar pessoas a se identificarem com determinados transtornos e concluírem, por conta própria, que possuem aquela condição.
Para Virna, esse movimento pode atrasar o cuidado adequado. Um profissional que atribui toda dificuldade de concentração ao TDAH, por exemplo, pode deixar de perceber que está diante de uma rotina insustentável e de uma necessidade básica de descanso. A busca por soluções imediatas também pode levar à tentativa de utilizar medicamentos como ferramenta para produzir mais, quando a questão central está relacionada à organização da rotina, ao descanso e à sobrecarga.
“Hoje em dia as pessoas vivem muito em uma rotina frenética, precisando ter alta performance, precisando produzir. A pressão é muito grande, não só das empresas, mas também de nós mesmos”, pontua.
Descansar também é estratégia
Para quem trabalha sob pressão, prevenir o esgotamento não significa necessariamente reduzir ambições ou deixar de produzir. O caminho, segundo a médica, está em construir uma rotina sustentável.
Estabelecer prioridades, definir limites de disponibilidade, inserir pausas ao longo do dia, praticar atividade física e cuidar da qualidade do sono são algumas das estratégias que ajudam o cérebro a recuperar sua capacidade de funcionamento.





















